A ideia contrária

Em alguma estrada da Inglaterra
1816

 

Dentro da carruagem a caminho de Stratford Upon-Avon, Olivia Greenwood, a duquesa de Clarence, soltou uma risadinha ao sentir o sussurro do marido em seu ouvido. 
— Colin! Como você é safado. 
Colin levantou uma sobrancelha e sorriu de forma travessa ao relaxar a postura no banco aveludado. Os ângulos de seu rosto ficavam ainda mais perfeitos quando ele a encarava com aquele sorriso irresistível. 
— Parece até que não me conhece. — Ele deu de ombros. — Sem contar que essa escapada é justamente para que eu possa ser safado. 
— Achei que era porque estava cansado. 
Colin passou a mão no cabelo loiro farto, finalmente cedendo. 
— Tudo bem, e por isso. Mas principalmente, porque estou com saudades de nós. Nosso aniversário de casamento está chegando e eu queria algo especial. 
Olivia sentiu o coração acelerar ao analisar as feições sinceras do marido. Ela também estava com saudades dele, afinal, mesmo vivendo sob o mesmo teto e dormindo na mesma cama, ambos estavam cheios de tarefas a cumprir. 
Foram meses agitados, aqueles últimos. Alice estava com dois anos, numa energia e disposição que às vezes era difícil de acompanhar. Já falava pelos cotovelos, era curiosa, tinha os mesmos olhos azuis e brilhantes do pai, mas era tão teimosa quanto Olivia. Uma personalidade, no mínimo, interessante. A administração do ducado ia bem, embora o Parlamento estivesse um tanto afoito naquele ano mais frio. O “ano sem inverno”, era o que alguns jornais diziam. Isso sem contar que, meses antes, Olivia ajudara a organizar o casamento da cunhada, Phillipa, com seu melhor amigo, Nigel Brown. Ela ainda ria ao lembrar que o duque entregou o noivo à irmã com um olho roxo — causado por ele. Como se Colin tivesse alguma moral em não seduzir damas respeitáveis antes do matrimônio. 
De qualquer forma, a vida de uma duquesa era muito ocupada, mesmo fora de temporadas sociais. Olivia adorava, mas passar um tempo sozinha e longe de tudo ao lado de seu marido lindo não era uma ideia nem um pouco desagradável. Especialmente porque eles tinham uma história que começara, de fato, longe de tudo e de todos. 
— Estou muito contente com essa sua iniciativa. — Olivia escorregou no banco para ficar perto dele. — Embora esteja com um pouco de pena de sua mãe. Alice anda um tanto terrível. 
Colin coçou o queixo, com a expressão pensativa. 
— Quem será que ela puxou, não é mesmo? 
Olivia riu e apertou os olhos ao mesmo tempo. 
— Você não é nenhum exemplo de bom comportamento, lembre-se disso. 
— Perto de você, sou um primor, coração.
— Perto de você, sou um primor — ela o imitou, afinando a voz. 
Colin gargalhou ao alcançar sua mão. 
— Não se preocupe com Lady Greenwood. Minha mãe tem experiência em lidar com seres humanos peculiares. Sem contar que Phillipa estará por perto, sabe como Alice gosta de passar tempo com ela e Nigel. 
— Se sei. — Olivia relaxou. — Mas é impossível não gostar deles. Especialmente agora, que ela tem falado tanto. 
— Ela está uma graça, não está? — Colin sorriu com amor. — Eu sei que sou suspeito, mas fizemos um bom trabalho naquela princesa. 
— Sim, fizemos — Olivia concordou, fazendo um carinho no rosto dele. 
Eles sacolejaram um pouco, ficando em silêncio por um instante. 
— Vamos passar a viagem toda falando de Alice, não vamos? — Olivia segurou uma risada. 
Colin levou a mão livre aos olhos. 
— Podemos falar dela, mas precisamos aproveitar também. São apenas três dias. — Ele ajeitou sua postura no banco.
— Isso. — Olivia fez o mesmo. — Vamos aproveitar. Conte-me, aonde exatamente estamos indo?
— Stratford Upon-Avon é bem charmosa. Uma vila, podemos dizer. A cidade natal de Shakespeare. 
— Hum, que interessante… — Olivia se aproximou mais dele. — E o que faremos ali?
— Bem, há um canal bonito em que podemos explorar com uma canoa. Posso remar enquanto você me admira. 
Ela revirou os olhos de forma divertida. 
— O chalé em que ficaremos também tem seu charme — Colin continuou —, algo como… — os olhos azuis dele brilharam —, aquela estalagem em que ficamos quando nos conhecemos. 
Olivia umedeceu os lábios e sentiu o rubor subir pela pele do pescoço. Impossível ter uma reação diferente, com aquele homem olhando para ela daquela forma. 
— Vossa Graça é mesmo muito safado. 
— Colin… — ele a corrigiu.
— Um safado!
— Eu apenas disse que é parecido. 
— Sim, mas eu conheço esses olhos e o que há por trás deles! — Ela apontou, e Colin fez uma manobra e a puxou para seu colo, ajeitando as saias do vestido azul para que ela ficasse sentada entre suas coxas, de frente para ele. 
— Esses olhos que só conseguem olhar para você. — Ele beijou os lábios dela rapidamente. 
Olivia passou o dedo na sobrancelha castanho-claro. 
— Vamos lá, não seja modesto. O que você realmente quer fazer quando chegarmos lá?
Ele levantou o canto da boca carnuda e a puxou pela nuca para mais um beijo. Olivia lhe deu total acesso, sua língua buscando a dele docemente, mas com desejo. Ela sentiu o toque da mão grande em seu seio, apertando-o com firmeza. 
— Olhe só, quem já está toda arrepiada — ele sussurrou junto à pele dela quando desceu uma linha de beijos pelo pescoço macio. — Ah, esse perfume de rosas me deixa louco…
Olivia sabia. Era por isso que tinha passado um pouquinho mais de perfume antes de saírem. 
— Quero sentir você também… — Ela começou a abrir os botões do colete dele. Em poucos minutos, dentro de uma carruagem em movimento, eles não eram mais Suas Graças, o Duque e a Duquesa de Clarence. Eram apenas… Colin e Olivia, pele com pele, boca com boca, fazendo amor com a mesma paixão que sempre sentiram um pelo outro. Com amor, que era cultivado dia a dia mesmo naquela rotina ocupada e cheia de responsabilidades e deveres a cumprir. 
Quando Olivia estremeceu nos braços do marido, ele a abraçou forte, arfando em seu pescoço. 
— O que acha dessa pequena demonstração do que faremos em nosso curto retiro? — Colin perguntou, encarando-a sorrindo quando conseguiu voltar a respirar. 
— Eu… — Olivia ainda estava ofegante —, eu gostei muito. Estou prontíssima para aproveitar tudo que essa viagem possa me oferecer. 
Ele gargalhou, tirando uma mecha de cabelo do rosto dela e colocando-a atrás da orelha. 
— Quem é a devassa agora? 
— Eu nunca disse que não gostava — ela protestou, acomodando-se junto a ele, repousando a cabeça no corpo forte e sentindo o perfume de sândalo masculino que tanto adorava. Ela sorriu ao ouvir as batidas aceleradas ecoando dentro do peito dele. — Seu coração está acelerado…
— Culpa sua — Colin disse, cheio de amor, e deu um beijo no topo de sua cabeça. — Você faz o que quiser com ele, não era esse o combinado?
Olivia apenas concordou.
Sim, era, e ela gostava muito daquele detalhe.